Acidum: Arte que transita, potência imagética que marca a cidade – grafite de Fortaleza e de outros mundos.

Mural Eva

Num dia quente e ensolarado na cidade de Fortaleza, eu andava pela Avenida Domingos Olímpio e me sentei em uma parada de ônibus. Esperando meu ônibus passar, uma imagem, um mural enorme à minha frente tomava todo meu campo de visão e despertava em mim insights de criatividade. Era a imagem de uma mulher, negra, que carregava nas costas uma trouxa de roupas e vários bebês, tinha os seios à mostra e o semblante forte de uma deusa. Eu pensava em como a sensação de estar naquela parada de ônibus era ímpar, um verdadeiro privilégio, você está andando na cidade e, como num passe de mágica, parece ser transportado pra dentro de um museu, ou de outra coisa, muito melhor que um museu. Aquilo que antes era só um muro enorme, uma matéria morta feita de tijolos, conseguiu ser ressignificado e transformado em tela pra criatividade de alguém, desencadeando uma verdadeira revolução molecular no significado daquele espaço. Parecia que, pela sua exuberância, aquela imagem “reanimava em mim as profundezas” (Bachelard, A poética do espaço, 1974), aquela potência, aqueles panos estampados que a mulher carregava me transportavam para um ser-tão de meu passado e de outras vidas, uma aparição que possibilitava um respiro em meio à fumaça e ao asfalto quente. Senti-me agigantando o espírito, relembrando a coragem de estar no mundo e a pulsão de vida. Naquele dia, vi uma arte que quer o deleite estético, mas também a reflexão política e a comunicação por outras vias, pelas possibilidades que só a arte e as imagens poéticas evocam. Só depois descobri que se tratava do mural “Eva” (imagem 1), do coletivo Acidum.

Acidum, ácido, é o sistema digestivo de uma mosca, que precisa colocar pra fora de si o alimento que consome para ingeri-lo. Como uma mosca, o artista da rua tem de absorver a realidade cotidiana da cidade e processá-la, transformá-la de alguma forma, reinventá-la através de suas imagens. Acidum é um coletivo que nasce em 2006, na cidade de Fortaleza, com o encontro dos artistas Robézio Marqs, Rafael Limaverde, Henrique Viudez, Leo Bdss e JR. Logo de seu surgimento, se anuncia uma experiência visual singularmente nova, um gesto político de transformação dos espaços públicos encarnado em uma pictórica potente, criativa, questionadora, inventiva. Desde o começo, a produção do Acidum explora intensamente uma visualidade exuberante e colorida, com temas que despertam imaginários vários, de seres alados, divindades, monstruosidades, fantasias e folclores. Mostrando sinais de uma arte que transita, seja entre mundos reais e imaginários, ou entre rua e museu, mar e sertão, espaços marginalizados e espaços de poder, seus murais foram constituindo-se pouco a pouco como marcos na paisagem de Fortaleza, ganhando significado enquanto elementos de verdadeira transmutação do modo de se perceber os lugares.

Já das primeiras intervenções do Acidum, uma chama atenção pela maneira (ácida) com que certeiramente critica o cerne da criminalização da arte urbana, sobretudo da pixação: criando grafites que eram verdadeiras propagandas, mas, ao invés de se anunciar um serviço qualquer, o que se anuncia é o trabalho do próprio Acidum. Ao realizar esse gesto, satirizando os anúncios que, sem limites, ‘brotam’ do concreto das ruas, o que o Coletivo propõe é o pensamento sobre as fronteiras entre o ilegal e o socialmente ilegítimo, o questionamento de um estado das coisas que leva muitas pessoas a repudiarem expressões urbanas como o pixo e o grafite mas aceitarem a presença constante de propagandas estampadas em regime monótono nos muros amorfos da cidade. O que o trabalho quer dizer é: “estou aqui me fantasiando de capitalismo pra ver se vocês me deixam existir em paz”.

Em 2008, o coletivo constrói uma exposição no MAC Dragão, intitulada “Entregue às moscas”, que simboliza bem o propósito político expresso em suas ações, uma vez que, à época, o MAC vivia uma fase de subutilização e sucateamento, e muitos artistas optavam, como forma de protesto, por se negarem a ocupar o espaço do museu. O Acidum optou por fazer a exposição, e nela inseriu uma série de críticas (algumas sutis, outras nem tanto) à má gestão dos espaços de cultura e arte da cidade – particularmente do MAC e do Dragão do Mar. A parede externa do museu foi infestada com pequenas moscas; o coletivo, durante a montagem da exposição, literalmente ocupou o museu, transgredindo as normas que o haviam imposto a gestão, ao convidar amigos para festas que tomavam as madrugadas; cerca de um ano depois, o Acidum interviu de forma não autorizada com uma grande alegoria em tecido de um “Elefante branco” que cobria a entrada do museu (imagem 3). Em 2007, foram selecionados para o Salão de Abril, que aconteceu no MAUC – UFC, e, ao invés de ocuparem o interior do museu, optaram por construir um desenho nos azulejos de sua parede lateral, transformando o corredor de passagem da Av. 13 de maio numa verdadeira obra de contemplação a céu aberto. Nesse contexto, revela-se extremamente pertinente a colocação que faz Luiza Interlenghi na publicação “Entregue às Moscas”, de 2011: “o Acidum parte da constatação de que espaços públicos não servem à convivência, mas à pragmática da circulação e do mercado. Escapar a esta organização funcional do espaço público – seja a rua ou a galeria – corresponde a praticar ações que interfiram nas relações entre espaço e tempo dominantes. Isoladamente, os espaços de ação do Acidum são insuficientes para definir a natureza da atuação do grupo. São os deslocamentos, os novos ritmos de uso e as relações inéditas propostas pelo grupo que configuram o projeto a ser realizado.”

Mural Elefante Branco

O ano de 2011 simbolizou um ponto de inflexão importante para o coletivo, que passou a atuar como dupla, de Robézio e Tereza Dequinta. A partir desse momento, sua projeção internacional foi se tornando cada vez mais consolidada, e pode-se dizer que, esteticamente, essas mudanças levaram a um Acidum de traços e imagens cada vez mais notadamente reconhecíveis como próprios – sobretudo com o uso das cores vivas e das estampas, feitas com stencil e que se repetem em diversos trabalhos como uma assinatura. Isto é, gradualmente foi se criando uma certa linguagem que faz com que seus grafites sejam quase que instantaneamente reconhecidos, como peças de um incontável ensaio aberto de ilustrações que contam histórias no meio das cidades. E, claro, no que tange a essa linguagem, existe o fator tamanho, que, com o passar dos anos, expandiu-se em ousada cadência. Hoje, os murais do grupo ocupam cada vez mais o campo de visão dos passantes das ruas de cidades Brasil afora, impondo-se (quase como marcos) em suas visualidades alegóricas e exuberantes.

Em suas obras mais recentes, a constante presença da figura da mulher revela uma mudança de perspectiva política do Coletivo, que agora não mais critica um status quo capitalista, mas questiona um status quo capitalista e machista, utilizando-se, para a construção desta crítica, da representação dessa figura – a mulher que se faz presente e resiste. Em “Iracemas” (imagem 4), o que se percebe, além dessa presença feminina, é a representação da mulher nordestina em suas três fases: a criança, a adulta e a idosa, interlaçando o que há de mais típico na cultura cearense com a acidez das cores vibrantes características do coletivo. Ao contemplar “Iracemas”, imediatamente me vem algo familiar, aconchegante, uma imagem que já vi antes. Vejo um rosto e, sobretudo, um olhar enraizado na cultura cearense. “Iracemas” evoca rostos presentes desde de o mais remoto sertão até a mais caótica parte de Fortaleza, mulheres presentes nas ruas e nas feiras. Das três mulheres, apenas o rosto da criança aparece. Cabelos negros, a pele preta e um olhar fixo, firme e forte. Tudo isso ganha outro grau de complexidade quando é esbanjado por uma criança, mas não somente uma criança: uma mulher nordestina, que transparece força e luta em um olhar tão meigo, mas tão calejado. Olhar brabo de quem não afrouxa fácil e de quem, apesar de tudo, assim como escrevia Lispector sobre sua Macabeia, ainda não esquece que são tempos de morangos. Tempos que remetem a incertezas e descobertas de quem tem a vida toda pela frente. E junto a esse emaranhado de sensações, em seu peito, posto em suas vestes, um punho cerrado, que escancara de vez a beleza da luta que sempre se atualiza e a força ancestral da representatividade da mulher.

Mural Iracemas

No decorrer dos anos, o Acidum perceptivelmente passa a adotar um traço mais realista em algumas de suas obras, ainda que sem deixar de lado signos característicos, como as cores vibrantes e as estampas feitas com stencil, que permeiam grande parte de suas obras atuais. Em Cabo Verde, realizaram a pintura de um mural chamado “A menina” (imagem 5), na parede de um espaço multicultural no bairro do Combo, onde foi inaugurada uma biblioteca por Alexandrino Lopes, jovem que passou um período estudando na Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e a partir de sua vivência na universidade passou a sonhar em montar uma biblioteca comunitária no bairro de onde veio. No mural “A menina”, percebe-se uma criança negra e de costas, equilibrando um bloco de livros na cabeça. Os traços mais realistas fundem-se a cores e a estampas de flores bem marcantes do coletivo. Da mesma maneira que em “Iracemas”, nas conexões que estabelece, o mural não é apenas fonte de contemplação estética, mas aproxima-se da realidade cotidiana de quem o contempla, tornando possível a experimentação de uma série de novas relações de identificação e proximidade entre obra/observador. “A menina” evoca todo o potencial transformador da educação. O saber, a consciência, a iluminação. Com a cabeça erguida e sob livros, “A menina”, assim como crianças que foram transformadas pela leitura, transmite a ânsia por um futuro grandioso. Uma imagem que resplandece inocência, curiosidade e, sobretudo, esperança.

Mural Curandeiras

Mesmo experimentando traços mais realistas nas construções de alguns dos seus murais, o Acium não abandonou a temática folclórica, fantástica. Em seu mural “Curandeiras” (imagem 6), exemplifica-se uma abordagem que não se compromete com a representação do que é dado como normal ou natural. Por meio de uma estética surrealista, o coletivo cria um repertório de seres que se assumem em formas mais geometrizadas e que expandem as possibilidades poéticas de interpretação, reinventando o real e transformando o urbano. Seu impacto visual, repleto de misticidade, de seres que esbanjam a infinita mutabilidade criativa do coletivo, dão vida ao que antes era só superfície inutilizada.

Enfim, é nessa dinâmica de investigação de lugares desconhecidos, imagens ainda não vistas, sentidos a serem descobertos que o Acidum vem exercendo sua inventividade colorida e poética há 13 anos. Tatuadas sob a pele de seus murais, pulsam potências que se expandem a outros mundos, gritos de amor e indignação à urbe, metamorfoses sutis sobre as gentes e os lugares. E que tenha vida longa este pulsar.